sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Adeus às armas

O escritor argentino Martin Caparrós publicou esta coluna no jornal Critica Digital, onde expõe os claríssimos motivos pelo qual não precisamos mais das forças armadas. Nem lá, nem cá, nem de qualquer lugar:

[...]"A ultima vez –uma das poucas- em que o exercito de San Martin lutou contra estrageiros foi em 1982, nas Malvinas, e todos sabemos como acabou: a tonta soberbia de supor que uma banda de inúteis mal preparados e ainda pior equipados poderiam sequer amassar a lataria de um dos exércitos mais poderosos deste mundo. Tirando isso levamos, felizmente, mais de cem anos sem uma mísera guerra externa. E ainda mais: sem grandes chances de ter uma.

Mas é na paz que os exércitos costumam ter uma coisa que chamam “hipótese de conflito”. Há anos me pergunto qual hipótese de conflito real poderia sustentar o nosso exercito pátrio. Contra os ingleses, nem pensar – não há como não perder. Contra os birmanos, tchecos, vietnamitas do norte e outros demônios soviéticos seria complicado. Pra começar, porque teríamos que encontrar uma boa desculpa; depois, porque moram longe; e pra terminar, porque já não existem. Contra os franceses ou os índios ou os australianos também não parece muito lógico; restam, é claro, os vizinhos. A possibilidade de combater contra o Chile, suponhamos, por causa de dez léguas de geleiras continentais, ou contra o Paraguai pela água, ou contra o Brasil por um cassino no Iguaçu ou um pênalti mal marcado é cada vez mais tênue. O mundo de hoje está cheio de organizações e mecanismos para que isso não aconteça, e o nível de conflito que –eventual e remotamente- poderíamos chegar a ter com nossos vizinhos é perfeito para que seja solucionado por uma dessas instituições.

O que é muito bom porque, de todas formas, não estamos à altura. Nosso exercito –desprestigiado, descuidado, justamente reduzido e mal apetrechado- não seria capaz de combater dois dias contra o Brasil, que acaba de comprar 17 bilhões de dólares em aviões helicópteros e submarinos nucleares. Nem sequer contra o Chile, que também acumula “ferros” exageradamente. America Latina continua cheia de pobres, mas os nossos vizinhos estão desperdiçando fortunas: o gasto militar na região duplicou-se nos últimos cinco anos. O que nos deixa duas opções: somarmos desde trás nessa carreira caríssima que não podemos nos permitir e vamos perder de qualquer jeito, ou fazer da necessidade uma virtude e declarar que não precisamos de um exército. Transformar a Argentina num país desarmado – ou relativamente desarmado- e dizer que somos mais bons, razoáveis e maravilhosos. Talvez, ainda, alguém acredite. Nos mesmos, por exemplo. "

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Modificações no estádio solicitadas por Maradona

Para o próximo jogo contra o Peru pelas eliminatórias, o DT da Argentina pediu que sejam realizadas algumas modificações no estádio de River Plate. Vejam o projeto:


sexta-feira, 17 de julho de 2009

'Até Quando?' o programa PIG argentino

Podemos rir de uma peça de humor, ainda que não compartilhemos o pensamento de quem satiriza?

Acho que sim, da mesma forma que podemos gostar de um filme ainda que não concordemos com "a mensagem" do diretor. Trata-se de uma questão de inteligencia, tanto do autor quanto do espectador.

Aqui vai um exemplo argentino. Capusotto, o melhor humorista argentino hoje, parodia os programas de rádio portenhos que criticam o governo Kirchner. Para os simpatizantes da atual gestão, a imprensa estaria só passando más notícias, com a finalidade de atacar o progressismo peronista dos K. O que aqui é chamado de PIG (partido da Imprensa Golpista).

É claro que não concordo com essa visão que se tem de esses meios de comunicação, nem aqui, nem lá. Pelo menos, não os considero mais perigosos do que os governos que criticam. Até porque acho que jornalismo de situação não é jornalismo.

Mas isso não me impede de curtir uma boa sacada, ainda que errada conceitualmente. Afinal, as melhores piadas são as politicamente mais incorretas, muitas vezes bastante preconceituosas.

Como as piadas de argentino, que nos pintam como imprestáveis, quando na verdade somos os melhores do mundo!*

*é ironia, ta?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O amigo de Lula

terça-feira, 14 de julho de 2009

A Desciclopédia caiu em Campos

Falei da Desciclopédia algum tempo atrás. Paródia da Wikipédia, naquela ocasião indiquei o que ela dizia da Argentina. Desta vez, as meninas superpoderosas descobriram que os enciclopedistas chegaram até a terra do chuvisco e prepararam um artigo demoledor, que começa assim:

Campos dos Gaytacazes Goytacazes ou Campos para a maioria da população preguiçosa da fronteira é a maior fonte de renda para os políticos corruptos do Estado do Rio de Janeiro, obtendo o honroso título de cidade com um dos piores IDH; levando em conta a verba que a prefeitura mantém em caixa.

Com uma população de meio milhão de otários, a cidade não vê nenhum avanço significativo (a não ser o avanço de políticos em cima dos ricos royalties pagos pela Petrobrás Indústria do petróleo).


Brasão de Campos dos Goytacazes
Bandeira de Campos dos Goytacazes
Brasão Bandeira

o artigo 'compreto', aqui.

Viva minha civilização

Mulheres sudanesas são chicoteadas por usarem calças.

depois vem me falar de etnocentrismo....

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Zarkozy - o homem que não tem medo de olhar

sábado, 11 de julho de 2009

O SENHOR ME DESCULPE

O senhor me desculpe
se o interromper, mas na recepção
Há um par de pobres que
Perguntam com insistência pelo senhor
Não pedem esmolas, não
Não vendem tapetes de lã
Nem elefantes de ébano
São pobres que não tem nada
Não entendi muito bem
Se não tem nada a vender ou a perder
Mas pelo que parece
O senhor tem alguma coisa que lhes pertence
O senhor quer que lhes diga que saiu?
Que é pra voltar amanhã, em horário de visita?
Ou melhor falo como o senhor disse:
“Santa Rita, Rita, Rita
O que se dá não se tira.”

O senhor me desculpe
A recepção ficou cheia de pobres
E não param de chegar
Da retaguarda, por terra e por mar
E como o senhor disse que saiu
E tratando-se de uma urgência
Me pediram que lhes indicasse
Onde fica a despensa
E que Deus vai lhe pagar
Me da as chaves ou os boto fora, decida logo,
Que enquanto estamos falando
Chegam mais e mais pobres e continuam chegando
O senhor quer que chame a um guarda pra revistar
Se eles tem em dia os seus papeis de pobres?
Ou melhor falo como o senhor disse:
“Bem me queres, bem te quero
Mas não toques meu dinheiro? ”

O senhor me desculpe
Mas o assunto ficou bem pior.
Chegam aos milhões e
Curiosamente, vem todos até aqui
Tentei segurá-los, mas pode ver
Deram com o senhor
Esses são os pobres que lhe falei
O deixo com os cavalheiros
O senhor se entenda com eles
Se não mandar outra coisa, vou me retirar
Se precisar de mim, é so chamar
Que Deus o inspire ou que Deus o ampare
Que a esses não lhes foi informado
Que Carlos Marx está morto e enterrado.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

ZÉ OPINATOR, o nosso comentarista convidado para aumentar o numero de leitores

Obama olhou pra bunda de uma brasileira que estava com Lula. Mais uma vez os americanos e a tradicional prepotência imperialista. Afinal, esse moreninho e o Bush são a mesma coisa...

General Motors vai sair da falência antes do previsto. É um bom sinal de que a economia americana está se recuperando e que não vou precisar vender o meu Kadett a preço de banana.

Travesti que esteve com Ronaldo morre de AIDS. É de se esperar que o fenômeno tenha usado camisinha, pelo bem do Corinthians.

A prefeitura de São João da Barra ensinará mandarim nas escolas municipais. Boa notícia. As crianças sanjoanenses devem estar preparadas para dizer “Sim, meu patrão” em chinês.

Continuam os escândalos no senado. Tem que preservar essa nobre instituição democrática, mas punir seus integrantes. Se for possível, com a pena de morte a machadadas.

País tem 18 milhões de asmáticos. Mas tem 182 milhões de brasileiros sem asma. Boa notícia não é notícia, por que?

Bandidos assaltam agência bancária da Uenf. É pra isso que os professores queriam aumento salarial?

A previsão do tempo anuncia Sol com algumas nuvens. Não chove em Campos, min. de 21º Max. De 31º. Essa é temperatura de inverno? Muito pouco sério! Cadê as autoridades?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mas o Rio continua lindo II



Informe do programa Television Registrada, do Canal 13 de Buenos Aires, sobre a violência no Rio.

Mas o Rio continua lindo

Brasileiro não gosta que gringo venha lhe dizer o que tem de errado no seu país. Disso eu sei um pouco. Mas ainda assim recomendo ler a entrevista que aparece no segundo caderno do O Globo de hoje a um jornalista do New Yorker*, onde conta suas impressões depois de visitar as favelas do Rio de Janeiro e conversar com traficantes e moradores. Ele está preparando uma matéria que será publicada em breve na sua revista, e que certamente despertará a fúria de algumas autoridades cariocas, que o acusarão de 'manchar a imagem da cidade', ou algo assim.

*quis colocar o link da reportagem, mas no site do O Globo não aparece. Por que será?

15:00h agora apareceu o link no site, é esse aqui

O interessante da visão forânea é a idéia de que o que está acontecendo no Rio é uma situação insustentável e inaceitável, onde o estado retirou-se de certas comunidades deixando-as em mãos de traficantes e milicianos. Essa ausência, aqui, já não espanta a ninguém. O reporter americano lembra ter visitado o Rio alguns anos atrás, e comprobou como a situação tem piorado.

Os cariocas parecem ter limitado a sua capacidade de indignação apenas aos crimes cometidos na Zona Sul, resignando-se a aceitar a barbárie no resto da cidade. O cerco se fecha a cada dia, e eles continuam se achando privilegiados por morar na cidade maravilhosa.

Me lembra o conto "Casa Tomada" de Júlio Cortazar. Leiam ele aqui embaixo.

CASA TOMADA, de Júlio Cortázar

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.








segunda-feira, 6 de julho de 2009

Quem tem medo da música em espanhol?

É curioso: já me falaram muitos brasileiros, especialmente as brasileiras, que gostam de ouvir um hispano (colombiano, argentino, o que for) falando português. Lhes resulta agradável o sotaque.

Mas não há quem lhes faça gostar da música em espanhol. Tirando algumas penosas exceções (Maná e Alejandro Sanz), nada se houve no Brasil de rock ou melódico latino-americano.

Eu entendo o por que: o espanhol é um idioma ‘duro’, foneticamente falando. Não tem a cadência e (justamente) a musicalidade do português. Resulta esquisito ouvi-lo numa canção. O que não entendo é por que gostam que falemos em português. Mas enfim.

O fato é que não chega a música de America latina ao Brasil. O que é uma pena, pois há uma riqueza e uma variedade tão grande quanto países e culturas. Talvez se se compreendessem as letras a coisa seria diferente.

Por isso traduz essa canção aqui embaixo: A do Pirata Zarolho, de Joaquin Sabina. É um cantor espanhol muito popular na região, e a música é um clássico dele. No vídeo, está cantando com Joan Manoel Serrat. E que este último cara não seja conhecido pelos brasileiros é, sim, um crime.

Serrat é um prócer da canção espanhola. Comparável com Chico Buarque no Brasil. Cantou contra a ditadura de Franco, mas também adaptou poemas de Miguel Hernandez e Antonio Machado. A música dele que mais perto chegou por aqui foi aquela “La Saeta” justamente com letra de Machado. Houve também um disco de músicos brasileiros que cantaram Serrat faz alguns anos (Sinceramente Teu), mas acho que teve mais repercussão fora que dentro do país.

É, na minha humilde opinião, o maior de todos os compositores de fala espanhola. Quem tiver paciência poderá apreciá-lo numa de suas músicas mais bonitas e conhecidas: Mediterrâneo, onde canta seu amor ao mar que o viu nascer.

domingo, 5 de julho de 2009

A do pirata zarolho - Joaquim Sabina

Não sou um cara de choramingar

Daqueles que reclamam por tudo

Se a vida deixar, eu lhe passo a mão

E se não, eu me viro sozinho


E como é grátis sonhar

E não acredito na reencarnação

Com um pouco de imaginação

Partirei de viagem logo

Pra vivir outras vidas

Pra experimentar outros nomes

Pra enfiarme no terno e na pele

De todos os homens

Que nunca serei:


Al Capone em Chicago - Legionário em MelillA -Pintor em Montparnasse

Mercader em Damasco - Carregador em Sevilha - Negro em Nova Orleans

Velho safado em Sodoma - Exilado em Sibéria - Sultão num harém

Policial, nem de brincadeira - Vencedor numa feira - Cigano em Jerez

Trapaceiro em Montecarlo - Cigarro em tua boca - Taxista em Nova York

Confesor da rainha - Toureiro em Cadiz - Barman em Dublin

Comunista em Las Vegas - Afogado no Titanic - Flautista em Hamelin

Jogador de sinuca - Rebelde no Céu - Dono de um Cabaret

Arranhão em tuas costas - Tenor em Rigoletto - Pianista de bordel

Bongoseiro em La Havana - Casanova em Veneza - Ancião em Shangri-lá

Morfinômano na China - Desertor numa guerra - Boxeador em Detroit

Caçador na Índia - Marinheiro em Marselha - Fotografo na Playboy


Mas se pudesse eleger

Entre todas as vidas, eu escolho

a do pirata zarolho,

com perna de pau

com um tapa-olho

com cara de mau!

O velho charlatão, capitão

De um barco que tivesse por bandeira

Um par de ossos sob uma caveira.


Revista Barcelona, análise da eleição argentina


O virus da direita já é pandemia

EMERGÊNCIA SANITÁRIA

O governo revolucionário fez uma grande eleição - mas não conseguiu impedir o triunfo dos candidatos empresários - tentou de tudo: máscaras, álcool em gel, e subsídios milionários às corporações - mas as pessoas deixaram de votar à esquerda montonera - empresas multinacionais ameaçam com se mudar para Cuba - o progresismo argentino tem remédio ?

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